A última segunda-feira de junho chega com um tom de cautela calculada nos mercados globais. Os futuros de Nova York apontam para mais um dia de ganhos, impulsionados pelo setor de tecnologia – o Nasdaq fechou a sexta em alta de 1,08% – e pela digestão dos dados de inflação ao consumidor nos EUA, que vieram em linha com o esperado. O Dow Jones e o S&P 500 também sinalizam abertura positiva, enquanto as bolsas europeias operam mistas, pressionadas pelo realinhamento das taxas de juros longas.
O petróleo Brent tenta se estabilizar após o tombo da véspera, cotado a US$ 104,41 (‑0,58%), ainda refletindo a trégua momentânea entre EUA e Irã, que concordaram em suspender ataques no fim de semana. O ouro, por sua vez, mantém‑se firme em US$ 4.532,3 a onça, com leve alta de 0,02%, sustentado pela busca por proteção em meio às incertezas geopolíticas e de política monetária.
Brasil: Focus e o Drible da Curva de Juros
Por aqui, o Boletim Focus divulgado pela manhã trouxe poucas surpresas: a mediana para a Selic no fim de 2026 permanece em 14%, sugerindo que o mercado espera apenas mais um corte de 0,25 p.p. no ciclo atual – consistente com a sinalização austera da Ata do Copom de 17 de junho. As projeções de longo prazo, porém, voltaram a subir, indicando que a política fiscal ainda não convence o mercado.
O Ibovespa opera praticamente estável na casa dos 173.352 pontos (+0,03%), depois de tentar sustentar o patamar dos 173 mil ao longo da manhã. O dólar comercial oscila a R$ 5,1761, com leve alta de 0,14%, em linha com o movimento de ajuste global e à espera da Dívida Federal de maio (14h30) e da definição da bandeira tarifária de energia para julho.
O mercado monitora com atenção o payroll americano na quinta‑feira e os PMIs da China na madrugada de amanhã, além dos ajustes de carteiras típicos de fim de semestre.
Destaques Corporativos: Ultrapar, Rumo e o Novo Consignado
No campo corporativo, a grande notícia é a desistência do Grupo Ultra na aquisição de uma fatia da Rumo (RAIL3). A informação, confirmada pelo jornal O Globo, foi recebida com alívio pelos investidores: as ações da Ultrapar (UGPA3) sobem forte, enquanto a Rumo (RAIL3) e sua controladora Cosan (CSAN3) operam em queda. A Ágora Investimentos avalia que a retirada reduz o risco de alocação de capital da Ultrapar e afasta o temor de um aumento de alavancagem que poderia comprimir dividendos. A Cosan, por sua vez, ainda busca compradores – o BTG Pactual foi contratado para avaliar a venda de sua participação na Rumo.
Em outro movimento relevante, a B3 iniciou hoje a negociação de contratos de eventos de IPCA e PIB, autorizados pela CVM para investidores profissionais – um passo importante para o mercado de derivativos macroeconômicos no Brasil.
No setor de óleo e gás, a Petrobras (PETR4) anunciou que o campo de Búzios atingiu produção recorde de 1,2 milhão de barris por dia, impulsionado por novas plataformas. O dado reforça a capacidade operacional da estatal e pode amenizar preocupações com a oferta global.
O governo também publicou as portarias do Desenrola 2.0 com uso do FGTS como garantia para o consignado privado. O teto de juros de 1,99% ao mês, porém, já gera críticas do setor bancário: analistas do BTG apontam que o limite é muito baixo para tornar os empréstimos rentáveis, especialmente dadas as dificuldades operacionais na execução das garantias.
Política e Eleições 2026
No front político, a pesquisa BTG‑Nexus divulgada hoje mostra empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno (47% a 44%, dentro da margem de erro). O cenário eleitoral ainda incerto adiciona uma camada de ruído fiscal que o mercado acompanha de perto, especialmente com as discussões sobre a nova rodada do Desenrola e as medidas de estímulo ao consumo.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o programa tenha impacto macroeconômico que atrapalhe a política monetária, chamando a conclusão de “enorme forçação de barra”. Ele destacou que o público‑alvo – trabalhadores informais – não acessa crédito consignado tradicional.
Agenda da Semana
Além do payroll e dos PMIs, a semana trará o Plano Safra 2026/2027 nesta terça‑feira (30), com expectativa de recursos volumosos e taxas ligeiramente mais altas. O mercado também digerirá a decisão da Suprema Corte dos EUA que bloqueou a tentativa de demitir uma diretora do Federal Reserve – movimento que reforça a independência do banco central americano e reduz ruídos sobre a condução da política monetária.
No curto prazo, a tônica é de consolidação. O Ibovespa testa resistência nos 174 mil pontos, enquanto o dólar se mantém colado nos R$ 5,17. Os juros futuros podem ceder um pouco se o noticiário fiscal não piorar. Mas, como sempre, o foco estará na capacidade do governo de sinalizar responsabilidade – e nas próximas pistas do Fed sobre os rumos dos juros globais.